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Miss Gemini's Blog

Um diário sem folhas, um desabar de tudo o que não tem mais lugar na cabeça. Devaneios e desabafos de uma geminiana tão diferente e tão igual a tantas outras... Sinto mais do que demonstro, sei mais do que aparento.

Miss Gemini's Blog

Um diário sem folhas, um desabar de tudo o que não tem mais lugar na cabeça. Devaneios e desabafos de uma geminiana tão diferente e tão igual a tantas outras... Sinto mais do que demonstro, sei mais do que aparento.

Voltamos a falar de luto

A tristeza volta a ocupar o seu lugar de fim de ano. Todos os anos tento ressignificar, reaprender a viver as festas sem ela. Tem sido uma missão falhada.

O mais doloroso do luto após 6 anos e meio? A velocidade com que ele se instala sem dar sinais. O choro difícil de controlar no meio de uma loja, ou de uma musica alegre no carro, ou pouco querendo saber se podes desabar um bocadinho naquele momento. O peito incha de vazio, fica difícil respirar, e a única opção para aliviar é chorar. A sua imprevisibilidade é assustadora. Quando pensas que lidas melhor, bate uma saudade que te faz sentir no ponto de partida. O vazio da ausência dela, o choque da realidade de que nunca mais lhe sentirei o cheiro, o pânico na menina desamparada que perdeu a mãe. Sim, nas minhas crises tenho plena consciência de que é a criança Andreia quem mais está a sofrer. 

Esta é outra coisa dolorosa de perder alguém cedo. Além de todas as datas importantes, e momentos corriqueiros do dia-a-dia que nãose vivem, está o nosso amadurecimento, a nossa compreensão e todos os pedidos de desculpa e perguntas que ficam por fazer. Não tive Natais suficientes. Não sei as receitas principais. Não lhe perguntei os pontos altos e baixos da sua vida. Não me interessei pelo ser humano atrás da "mãe". Não será avó. Não conhecerá a velhice com toda a sabedoria que ela traz. E isso dói. Por ela e por mim. 

Estamos em Novembro, e ir ao shopping comprar prendas sem ela doeu. As memórias vieram do peito, não da cabeca. Por momentos senti o cheiro, os dedos mindinhos entrelaçados, e o brilho no olhar de quem agrada às filhas. Hoje percebi o quanto aqueles domingos significavam para ela, que ali ela se sentia amada. Só hoje. E ela já se foi há seis anos e meio.

Vem luto. Cansei de ter medo de cair. Quero que me mostres o que preciso ver. Esta Andreia está pronta a finalmente viver-te. 2026 será o ano em que esta raiva vai passar, porque a permitirei existir.

Lista de gratidão

Na busca por ser melhor pessoa e mais feliz iniciei-me na tão falada lista de gratidão. E frustrei-me, porque a proposta é listar todos os dias 3 coisas pelas quais me sinto grata, mas ao fazer isso como uma tarefa diária, vinham sempre as mesmas coisas à mente e comecei a sentir que não era grata o suficiente pelo que tenho, pelo que vivo e pelo que sou. Até que mudei o registo.. criei uma lista onde anoto o momento em que me sinto grata por algo. Para me auxiliar, tiro fotos de momentos banais em que me sinto bem, e no fim da semana vou rever essas fotos e o que me transmitem.. a lista cresceu rapidamente. Um por do sol, um café preparado com intenção de me mimar de manhã, uma pausa à beira mar com um livro, o momento em que tenho os dois animais aninhados a mim à espera da hora de ir deitar, coisas que o ordenado me permitiu comprar, viagens, idas a restaurantes novos, experiências, reencontros com amigas, gestos de carinho que têm comigo... e a frustração passou, porque foi facil assim entender todas as coisas boas que acontecem no dia a dia e passam despercebidas na correria.

Se te fizer sentido, experimenta. Não como tarefa, mas como lembrete à memória que continua a guardar mais facilmente o que dói ou incomoda.

Talvez isso te ajude também a perceber que quem constrói a tua vida és tu, com as escolhas e hábitos que manténs em base regular, porque culpar a vida por tudo é injusto até com ela, coitada. Se não crias os momentos que queres viver, vai passar-te ao lado, e a responsabilidade é só tua.

Estarás a pedir demais?

Até onde vai o teu egoísmo? Até onde estás pronto a doar-te a outra pessoa sabendo que não receberás nada em retorno, e pela simples motivação de amar? É fácil pedir um amor que se doa, mas estás pronto a doar-te na mesma medida?

Hoje eu percebi o cuidado que se deve ter com o que se deseja. Lembrei-me de como cuidei da minha mãe quando a vida lhe lançou um avc, e a seguir um cancro. Se há uma coisa que tenho certeza é que não fui mais um peso para ela. Fui leveza, fui risos, fui silêncios que gritavam saudades e lamentos quando ela precisava - tanto. Mas não fui um peso. Não fui mais uma questão para ela lidar. Não fui mais uma preocupação ou motivo de instabilidade. Fui o forte onde ela sabia que podia descansar. A certeza das visitas bi-diárias sempre com o mesmo mood, permitindo-lhe mostrar-me como ela estava naquele dia. A certeza de um colo para ela fazer o que bem quisesse, até quando escolheu desistir.

Sei que não fui a incerteza, a instabilidade, a angústia no peito por não saber o que esperar... ainda que todo o meu mundo estivesse em colapso, em queda livre, e eu sem nem o tentar agarrar. Fui certeza. Fui colo. Fui a garantia de que ela não estava sozinha. Fui o que procuro no mundo. Alguém tão pouco egoísta que quando vê alguém que ama a sofrer, arruma as suas dores numa caixinha para ser colo certo na vida de alguém. Porque às vezes é só isso que podemos ser, um colo certo no meio do caos. Aquela pessoa que garante o mesmo tratamento, o mesmo sorriso, o mesmo abraço e a mesma energia ao outro, principlamente quando a vida se torna não incerta que nos foge dos pés.

Nesta "lista" de coisas importantes que se quer para a vida, esta é uma delas. É preciso que saiba ser colo, ser a calma no caos, ser a ajuda sem ser pedido, ser empatia, ser a segurança quando me falhar o chão.  E sei que não é pedir demais porque eu consigo ser essa certeza, calma e segurança também. 

Tem algo de errado nela...

Estando sozinha há quase 2 anos começo agora a sentir o julgamento alheio. Aquele arzinho de "o que ela tem de errado para estar sozinha?" E eu poderia responder a essa questão, porque tenho muito de errado realmente.. mas este texto não é para falar dos meus defeitos. Também não é para pintar a vida de solteira e autosuficiência como a maravilha do sec XXI. Até porque o que realmente quero é construir uma familia, e isso não se faz sozinho. Quando me questiono por que esses julgamentos não me afetam, chego a uma conclusão simples. Mais do que procurar quem ocupe um espaço e me tolere, procuro quem queira ficar apesar dos meus erros, e me mostre com atitudes mais do que com palavras.

Quando estás sozinha aprendes a cuidar de ti. Da forma que deverias ter aprendido na criação mas por falta de pais emocionalmente preparados ou de uma vida mais fácil, não te foi ensinado. Aprendes em adulta a cuidar do teu corpo, das tuas emoções, da tua vida, dos teus sonhos, da tua paz. Aprendes a mimar-te e a fazer-te feliz.

Chegando aqui, responde-me: como vais permitir que alguém receba tudo o que tens de bom, se não te cuida da forma que tu te cuidas? Como vais aceitar relações onde só querem o teu melhor, quando tu te dás e aceitas o outro por inteiro? Como vais alimentar egos quando o que procuras é vulnerabilidade, conforto, segurança e paz?

Uma relação falhada faz-nos ver o que não queremos, mas um tempo sozinho faz-nos entender o que queremos. E quando entendes, não consegues voltar ao ponto de partida.

Por isso mantenho-me sozinha, sem dores, porque não consigo alimentar relações vazias, conversas ocas e egos inflados. E principalmente porque aceitei que estar sozinha é melhor do que estar mal, acompanhada. Deixei de ter pressa, deixei de ver frustrações disfarçadas de oportunidades, curei a dependência emocional (afinal até sou menos 'errada' agora 😅) e alimento o melhor de mim para quando chegar. Quando for para ser - sem dúvida - será.

Cansada de frases feitas

Estou cansada de frases feitas e de textos vazios.

Quero ouvir-te falar de quando te cortaram em pedaços e seguiram como se nada tivessem feito enquanto limpavam a navalha na mão. Quero saber o que sentiste quando escolheram a fase em que mais sofrias para, em vez de te darem a mão e serem colo, te humilharam até mais não. Quero conhecer a tua sensação de alma vazia de esperança. Quero que me contes como foi quando nem tempo te deram entre um golpe e outro. E o que te deu forças. Quero saber em que caixas já te fecharam, e de quais conseguiste sair. Quero saber os erros que já cometeste e quais repetirias. Quero saber qual foi a dor que te deixou dormente, que te fez esquecer de quem eras. Quero conhecer o que te lapidou, o que de melhor tiraram de ti e o que te trouxeram.

Quero falar sobre o dia em que percebeste o brilho a voltar. Quero que desabafes sobre a vergonha de olhar para trás e perceberes as faltas de respeito e empatia que aceitaste, e como isso te molda hoje. Quero saber como reconheces o amor, e como o ofereces aos outros. Quero saber em que acreditas, quais os teus valores e conquistas. Quero saber o teu limiar de dor, mas principalmente o de amor.

Não por desejar que já tenhas sofrido isto tudo, mas acredito muito que a maioria de nós já achou que não superava algo que superou. Quero conhecer a pessoa que mais falta de faz e saber o porquê. Quero ouvir-te falar sobre o que admiras em alguém. E o que faz o teu peito vibrar. Sem artimanhas, sem passar pano, sem enfeites.

Porque quero quem se doe, e não quem à vida se fechou. Quero quem é bondoso por conhecer o que é ser cruel. Quero quem se conheça o suficiente para não ter medo destas conversas. Quero quem se comprometa com a vida e procure o melhor para os seus. Quero quem se viu encolhido de tal forma que hoje leve os outros a voar!

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